Hoje, Madalena, ao arrumar e organizar os materiais de Mariana, pertencentes aos anos de 2020 e 2021, tem como objetivo verificar os livros, cadernos, outros objetos e papéis a serem doados, descartados e guardados como lembrança para a linha da vida da filha. É claro que tudo passará pelo crivo da pequena Mariana. A menina chegará da escola e participará ativamente das decisões.
Madalena inicia a arrumação e no caderno, de Artes, do segundo ano, na última página, vê escrito em letras grandes: JOÃO, NÃO FIQUE TRISTE, SOU SUA AMIGA.
Cada palavra lida traz de volta lembranças do diálogo doloroso entre mãe e filha em março de 2020. Madalena, ouve perfeitamente em sua mente a conversa com a filha, faz um mergulho naquele momento de início de pandemia.
— O que eu faço mãe? Agora, foi com o João! — A menina busca com lágrimas nos olhos apoio da mãe.
— Muito triste o acontecido, minha filha. — Madalena responde com pesar no coração.
— Como vocês conversaram sobre a perda na aula? — A mãe continua sua fala e ao mesmo tempo passa com cuidado as mãos na cabeça da filha.
— Mãe, quando a professora contou o porquê o João não estava conectado na aula, senti ânsia, dor no estômago.
– Como ela contou? — pergunta a mãe.
— Falou com os olhos tristes sobre a morte do Avô do João. Ele morreu porque pegou o COVID 19. — Olhos amuados da menina buscam o chão.
— Filha, quanta tristeza.
— E agora, como eu faço? — indaga Mariana, desconsolada.
— Como vocês decidiram fazer no coletivo da classe? — pergunta Madalena, sabendo da postura metodológica do colégio em fazer rodas de conversa e combinados.
— Foi combinado, quando o João voltar a participar das aulas, iremos conversar com ele e deixar ele falar tudo o que quiser falar — relata Mariana.
— Como vocês fizeram com a Ana? — nova indagação de Madalena.
— Sim, mãe, primeiro a Ana perdeu a tia querida para esse vírus e agora o João perdeu o avô tão amado. — A menina sente pesar.
— O que você quer fazer?
— Ele é meu melhor amigo. Eu quero mesmo é ver o João, mas não posso — Mariana sente profunda frustação.
— Eu posso fazer uma ligação de vídeo, mas não sei o que falar para ele. — O incomodo aperta seu peito.
— Quando você era bem pequena, há uns seis anos, morreu seu padrinho. Eu também não sabia o que falar para sua madrinha e minha melhor amiga. — A mãe conta o momento de perda triste que viveu para a filha.
— Não me lembro muito do meu padrinho, eu era bem pequena, mas eu amo minha madrinha. Como você fez para ajudar ela? — pergunta a filha, se sentindo amparada.
— Quando soube, eu e seu pai fomos até a casa da madrinha. Não tinha isolamento naquela época.
— O que você fez quando viu a madrinha? — Mariana indaga com os olhos fixos na mãe.
— Chorei. — responde de pronto.
— Falou que estava resfriada? — pergunta a filha.
— Não. — A pergunta surpreende a mãe.
— Por que não? — A filha continua a indagação.
— Porque eu não estava resfriada, estava triste. Nós choramos juntas. — Madalena responde tocando as mãos da filha.
— Mãe, o João sempre conta do dia da pizza na família dele. — A conversa muda de rumo.
— Nossa, fale como é.
— O Avô do João deixava todos escolherem os sabores. O João gosta de pizza de queijo, tomate e aquele verdinho que você tem aqui plantado.
— Manjericão.
— É, ele adora manjericão.
— Será que não vai ter mais o dia da pizza? — indaga com os olhos bem tristonhos.
— Só o tempo vai dizer. — A mãe responde sabendo não ser possível responder.
— Mãe, eu quero ligar para ele de vídeo. Sei que vou chorar. — A menina decide o que fazer.
— Se o choro vier, chore. — Madalena alivia um pouco seu próprio coração.
— Eu não vou falar que estou resfriada. Sou a melhor amiga.
Passaram-se mais de dois anos, hoje Mariana está no quarto ano e as aulas voltaram a ser presenciais.
Mariana chega da escola com o pai, sobe no quarto, vê a mãe com o caderno do segundo ano aberto nas mãos, olha para ela e fala.
— João falou que hoje vai ter pizzada na casa da vó Maria. É sexta-feira!