Gênio da lâmpada

Caí com as amoras colhidas para o neto nas mãos. A dor foi insuportável. “Certeza, quebrei meu pé”. Depois do raio x, constatou-se. Não foi o pé, e sim a fíbula. 

Voltei da caminhada sem as amoras, engessada e na garantia de ter que adiar a viagem para o litoral. E para arrematar, meu humor estava lamuriento. 

Vinte e um dias com o gesso e outros vinte e um com a bota, sem colocar o pé esquerdo no chão. 

Em meio às cobertas e travesseiros, encontrei a lâmpada mágica. 

Com a vista embaçada, esfreguei o objeto. Limpei os óculos e vi com nitidez meu gênio. 

Primeiro o ser abençoado me arrumou as muletas, depois a cadeira com rodinhas e por fim uma cadeira de rodas. 

Preparou um esquema seguro para o banho e se esmerou nos cafés da manhã. 

As dores, apesar de intensas, aos poucos foram amainadas pelos sabores nos preparos  das refeições e nos toques de afeto em realizar desejos. 

Baixei no Kindle Unlimited o primeiro romance da querida amiga escritora Ilma Pereira, “O que  os quilômetros não te contaram”, leitura intrigante, deliciosa. Viajei pelas estradas.

Adquiri o livro virtual, “Lavoura arcaica”, romance de Raduan Nassar.  Narrativa densa, rica, intensa . 

As leituras das obras se alternaram com doramas coreanos, playlists de estilos variados, programas de culinária, vídeos do YouTube de assuntos bem diversos, momento da novela Pantanal, acesso aos grupos nas redes sociais,  tempo para escrever e a amorosa companhia do gênio. 

Hoje, em meu momento dorameira, os sentidos gustativos foram aguçados pelas imagens dos suculentos kimbap. 

A visão foi intensificada com o preparo do lamen.  A cena abordou a lembrança guardada na memória de um dos personagens, pelo qual, em segredo, seus empenhados e afetuosos funcionários, procuraram e conseguiram encontrar o cozinheiro.  Ele realizou seu sonho, preparou a iguaria e trouxe de novo o sabor das lembranças. O lamen foi sorvido com imenso prazer.  Ao assistir, minha boca ficou aguada. 

— Nossa, esse lamen me despertou a vontade de comer yakisoba. Daria tudo por isso. 

O episódio terminou e o meu iniciou. O meu gênio, sem eu perceber, preparou o suculento yakisoba.  O prazer do alimento quente aqueceu meu coração. 

No final dessa temporada, é bem provável não haver diferença entre meu peso no início da convalescença com o gesso e a pós-temporada sem ele. 

Agora, a minha gratidão ao meu amor com nome de anjo, meu gênio real na caminha de vida, não terá balança capaz de calcular.

Elaine Perez

Publicado por focomfo

Escrevo na dobra corpo, pulso, ciclos encontros, acontecimento ondas de pertencimento.

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