Menina de trança

    No sufoco, a menina se fecha e se mantém calada.

    Pensa lá no fundo do silêncio, temendo que a respiração revele o que busca esconder. Nos bancos da escola o olhar foge de qualquer possibilidade de encontro.

    A trança, contenção dos fios impostos pela mãe, impõe um ar de menina ingênua e feminina.

    — Como atender a sonhos que nascem de desejos presentes no ventre? Nos planejamentos da escola? No grupo de meninas da classe? — Cristina pergunta a si mesma. E não para por aí.

    — Como atender aos diferentes olhares dos meninos? — A cada indagação o frio no estômago aumenta.

    A menina sente um profundo estranhamento.

    Sabe que não poderá atender nenhuma dessas expectativas.

    A única filha mulher, tão esperada, não se percebe a mulher dos sonhos.

    Não se vê tão feminina assim, ou melhor, o feminino sentido, também não se encaixa ao ensinado na escola ou ao desejo exposto pelos meninos mais populares da turma.

    A menina cada vez mais calada não encontra saída e nem entrada no mundo das pessoas normais.

    Sabe-se mulher e se encanta também por mulher.

    Tudo já passou pela sua cabeça.

    — Será que tenho alguma doença? Sou fruto de algum pecado? Será que tenho cabeça fraca? — Lá no mais profundo do seu ser brota a resposta.

           A menina percebe estar  no mundo e com o mundo.Sente o coração responder e a alma sonhar. Imagina seu cabelos soltos, os cadarços afrouxados. Se vê em conversas sobre todas as formas de amor com sua família, na escola, em todos os lugares em que seu ser deseje expressar. Seu peito entoa um profundo pedido, roga.

    A quem roga?

— Cristina, a professora de Matemática, já está indo para a classe, vamos logo senão você vai ficar fora da aula de novo. — Melissa, a única amiga da turma, segura em seu braço e puxa com força. As duas seguem para a sala de aula. Cristina vai, a passos lentos, a trança bem presa e apertada na cabeça.

Elaine Perez

Publicado por focomfo

Escrevo na dobra corpo, pulso, ciclos encontros, acontecimento ondas de pertencimento.

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