Gentileza

Estela e sua amiga Gorete decidem fazer um novo caminho na volta da aula de pilates. 

A conversa é animada e 

Estela sugere que virem  uma rua desconhecida. Mais à frente, avistam um grupo de pessoas na calçada em frente a um portão grande e aberto. 

Gorete se afasta da amiga para pegar a meia de pilates derrubada no chão. 

Estela, ao olhar para trás para ver a Gorete, percebe duas pessoas empurrando um carrinho lotado de reciclados. 

As duas amigas se juntam novamente e Estela sente medo, algo que a incomoda. Gorete desaparece da cena e o carrinho encurrala  a amiga, bem em frente  à garagem aberta. As pessoas da calçada formam uma barreira,  proibindo  a passagem dela. 

Estela é levada para dentro, todas as pessoas entram, o carrinho é empurrado e o portão se fecha.

O medo de Estela se intensifica. Lá dentro a mulher se vê mergulhada em um universo de muita pobreza.  Vive o cenário do interior de favelas no Brasil, Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe. 

Estela não consegue entender, procura Gorete, não encontra e vê as pessoas do carrinho e da calçada uma a uma. Todas a olharem para ela, sem dizer palavra alguma. 

Estela percebe dentro de si sua ancestralidade gritar. Assume para si seu medo e preconceito. 

Nesse momento, uma mulher afro-brasileira chega perto de Estela e a reconhece. Diz saber da história de branqueamento vivida por sua família, do elo perdido em relação à adoção de seu pai e do desconhecimento de todos a respeito da ancestralidade africana. 

Estela olha a mulher, se encanta com sua força e com a  simbologia  reconhecida de seu turbante.  Ao admirar, sente algo sendo amarrado e torcido em sua cabeça. Revive a representação do turbante, como símbolo de resistência ao sistema racista, símbolo de autoafirmação, empoderamento negro, e conexão ancestral. Percebe o elo de sua história se desenhando.  Abre os olhos e todos estão olhando para ela. 

Ao abrir sua mochila de pilates, avista um brinquedo. O menino chamado Mingo, próximo a ela, abre um sorriso, recebe de Estela o presente e sai feliz brincar. 

Dentro de outro bolso da mochila, Estela vê panelinhas e muitos brinquedos para brincar de comidinha. Malaika, a menina de olhos brilhantes, recebe com alegria os brinquedos.

Lueji, a mulher de olhos penetrantes e lindo turbante, pede para Estela não esquecer de expressar a gentileza, sentimento forte em sua alma.  Solicita, olhando profundamente nos olhos, a continuidade da expressão da arte, força representativa e criativa, de ligação de Estela com a sua ancestralidade.

Estela abre os olhos e acorda do sonho. O coração se expande. Ela passa as mãos na cabeça e percebe a falta do turbante. Senta na cama e se deixa rememorar o vivido do lado de dentro do portão.

Publicado por focomfo

Escrevo na dobra corpo, pulso, ciclos encontros, acontecimento ondas de pertencimento.

Deixe um comentário

Crie seu próprio site, grátis no WordPress.com.Crie seu próprio site.
Começar grátis