Coco-de-roda
Conheci Caiana dos Crioulos e o coco-de-roda nas vozes das cirandeiras e cantadeiras. Me contaram sobre o pertencimento. “É melhor morrer na luta/ Do que a fome nos matar// Margarida se criou-se/ No Agreste de Caiana/ Porém a sua cultura/ Era abacaxi e cana”.
O lado desconhecido dos meus antepassados gritou em meus ouvidos. Hoje dancei com as mulheres e cantei o sopro da liberdade. Voltei para casa, em meu conforto.
Mergulhei na trajetória do meu branqueamento. Vozes silenciadas. Nunca falamos abertamente sobre meu pai e sua desconhecida procedência. Foi adotado, deixa pra lá, sua cor, seus ancestrais, sua triste história.
Deixamos e ele se foi. Hoje estou ciente do branqueamento, da branquitude e do poder dessa condição. Seja lá em Caiana dos Crioulos, aqui, no condomínio onde moro, nos espaços privados, a céu aberto, na fossa, no canto, no cárcere, no trono, no ocidente ou oriente, todo ser humano produz cocô.
Agora, é fato, há uma enorme diferença na realidade de onde expelimos nossa excreção, nossos resíduos e restos.
Deixa eu parar de falar em cocô e voltar a me encantar com a infância, com o samba de coco, de Assis Calixto.
“Cavalinho é de barro
A boneca é de pano
No recreio da escola
Nós todos brincamos
As meninas de roda
Os meninos com bola
No recreio da escola
Nós todos brincamos
Ela dança ciranda
Sua voz tão bonita
Com boneca de pano
A todos conquista
Cavalinho é de barro
A boneca é de pano
No recreio da escola
Nós todos brincamos”
Elaine Perez
