Força

Minha homenagem 🌹
Força
“Por isso uma força me leva a cantar.
Por isso essa força estranha”

Tom de silêncio, tempero baiano, cheiro de mar, flores a Iemanjá.

“Por isso é que eu canto e não posso parar”

Gal, Declaro gratidão
Bênçãos e luz na jornada.
Sua voz canta tons em ritmo de brasilidade.

“Por isso essa voz, tamanha.”

Potência derramada na terra, mistura que fica na gente,
Beleza, leveza.
Voa, guitarra alada.
Harpa dedilhada por anjos musicais.

“Por isso essa voz, essa voz tamanha “

Elaine Perez

Canção : Força Estranha de Caetano Veloso..

Festa caótica

Conto em que situo a protagonista em um acontecimento do filme “Parasita”, do diretor Bong Joon-ho.

Festa Caótica

Caprichei no modelito para arrasar na festa de aniversário do filho caçula da família Park.

Conheci a Sra Park na reunião promovida pela escola de nossos filhos. Os meninos são colegas de turma.

Depois da reunião, enquanto as crianças brincavam um pouco, falamos de  banalidades e depois conversamos  sobre  cães.

Esse foi o único ponto em comum com a sem noção, Yeon-gyo. Nós duas descobrimos que alimentamos nossos pets com ração orgânica da melhor  qualidade e, por serem muito ativos, contratamos o mesmo treinador para passear com os cachorros todas as manhãs e finais de tardes.

Acredito ser essa conversa um dos motivos de eu e meu filho termos sido convidados para o aniversário. 

Ao chegarmos  à festa, percebemos todo o local enfeitado com tema de Cowboys e índios. Yeon-gyo veio ao nosso encontro e agradeceu com certo desdém o presente. Ji-hoon e eu escolhemos o mini drone mais potente para presentear Da-song. É lógico que minha intenção foi impressionar Dong-ik, o marido rico. Divorciada há três anos, quem sabe o bem sucedido CEO caísse nos meus encantos. 

Meu filho me contou da nova professora de arte contratada para dar aula particular  para o caçula mimado de Yeon-gyo.

É lógico,  ela não poderia deixar de me apresentar à profissional. Achei a professora simpática e, na primeira  oportunidade,  pedi seu contato.

Se Ji-hoon não quisesse fazer as aulas, faria eu. Estava decidido, ficar atrás da sonsa, nunca. 

Não posso negar, os Park não economizaram na festa. A casa estava cheia de empregados.  Todos com cara de mortos de fome.  Havia fartura por todo lado. 

Aproveitei o momento em que o Sr Park estava  sozinho, cheguei perto com duas taças de champanhe. Ofereci a bebida e ele, meio tímido, aceitou. 

Percebi que pintou um clima. Falei da amizade entre nossos filhos. Ele animado me contou sobre a apresentação surpresa que faria  e pediu para eu não perder o momento.  

Eu aguardei ansiosa. Havia uma cantora de ópera fazendo sua apresentação. Os convidados ouvindo e prestigiando. Eu mesmo não gostando do estilo, busquei demonstrar uma escuta interessada.  

De repente, avistei o Sr. Park, o homem tímido e discreto, vestido de índio americano e ao seu lado, talvez um empregado meio desconfortável  e também fantasiado de índio. Achei a cena um tanto ridícula. 

A professora de arte, surgiu trazendo o bolo de aniversário de Da-song.

Nesse momento apareceu um velho, com o rosto cheio de sangue  e com uma faca na mão. O ser em fúria atacou a professora.

As cenas foram de muita veracidade. A gritaria e o caos se instalaram no recinto. Foram cinco minutos de horror.

A minha pretensa professora de artes foi atingida e morta na cena. O velho acabou com ela e nenhum convidado, muito menos eu, chegamos perto do corpo. 

O aniversariante caiu desmaiado no chão.  O Sr Park só gritava, mandando o índio proteger a família. 

O homem  que parecia contrariado, avançou, possuído  de raiva e em vez de proteger o patrão e matar o velho, atacou o meu  futuro  investimento, o Sr. Park. Não compreendi nada. Gente louca!

Nesse momento, todos os convidados já tinham ido embora,  decidi pegar meu filho que estava em choque e sumimos do local. 

No dia seguinte, descobrimos toda a tragédia na mansão dos Park.

Diante do show de horrores, me confortei das más vibrações com a   chegada  do treinador de cães.  Hoje ele veio para um horário esticado até o amanhecer. Eu, como patroa generosa, entreguei para ele o Fahrenheit Dior, presente escolhido a dedo. A noite perfumada foi recheada de grandes sensações. 

Elaine Perez

Coco-de-roda

Coco-de-roda

       Conheci Caiana dos Crioulos e o coco-de-roda nas vozes das cirandeiras e cantadeiras. Me contaram sobre  o pertencimento. “É melhor morrer na luta/ Do que a fome nos matar// Margarida se criou-se/ No Agreste de Caiana/ Porém a sua cultura/ Era abacaxi e cana”.

             O lado desconhecido dos meus antepassados gritou em meus ouvidos.  Hoje  dancei com as  mulheres e  cantei o sopro da liberdade. Voltei para casa, em meu conforto.

               Mergulhei  na trajetória do meu branqueamento. Vozes silenciadas. Nunca falamos abertamente sobre  meu pai e sua  desconhecida procedência. Foi adotado, deixa pra lá, sua cor, seus ancestrais, sua triste história. 

            Deixamos e ele se foi.  Hoje estou ciente do branqueamento, da branquitude e do poder dessa condição. Seja lá  em Caiana dos Crioulos, aqui, no condomínio onde moro, nos espaços privados, a céu aberto, na fossa, no canto, no cárcere, no trono, no ocidente ou oriente,  todo ser humano produz cocô.

            Agora, é fato, há uma enorme diferença na realidade de onde expelimos nossa excreção, nossos resíduos e restos.

            Deixa eu parar de falar em cocô e voltar a me encantar com  a infância, com o samba de coco, de Assis Calixto. 

“Cavalinho é de barro

A boneca é de pano

No recreio da escola

Nós todos brincamos

As meninas de roda

Os meninos com bola

No recreio da escola

Nós todos brincamos

Ela dança ciranda

Sua voz tão bonita

Com boneca de pano

A todos conquista

Cavalinho é de barro

A boneca é de pano

No recreio da escola

Nós todos brincamos”

Elaine Perez

Não deixo não!

Hipocrisia jogada debaixo do tapete é poeira carregada de consentimento, permissão e submissão.

Ironia desculpada como jeitão natural de ser.

É violência carregada de preconceito, menosprezo, maldade e desumanidade.

Idolatria do medo disfarçada em pregação é movimento alienante que saqueia as almas no discurso que oferece o perdão das dívidas.

Segurança, prometida na mira da bala é higienização, eugenia, homofobia, misoginia e tantos outros ias, que só mascaram, disfarçam e maquiam a ânsia de perpetuar o poder.

É ação covarde que não suporta o movimento de escuta e pertencimento.

Não suporta mãos que oferecem apoio e convite.

Não suporta o olho no olho, pois teme ser descoberto.

Deixa pra lá…

Não deixo não!

Elaine Perez

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