Meio de Nada

Meio de Nada

Nasci, meio nascida
No meio da rua,
No meio do barraco

O pai, se foi, meio perdido
para a rua dos Confins
A mãe, rasgada no meio, meio
amargurada, ficou, calada

Na noite, meio chuvosa
A menina, no meio da esquina,
arrastada para o meio do mato.

O corpo, meio usado, roubado,
a boca, meio sufocada
na corrida, meio entorpecida,
fui gerada, meio assustada

Dessa história, meio comum,
me arrasto, no meio do abandono

Sem meias palavras,
escrevo no meio da mesa,
meia folha e meia

Amanhã é dia de comprar,
meio quilo
de sobrevivência.

Elaine Perez
Programa de Escrita Literária
De Mell Renault

Oficina 365 Poemas de @mellrenault / Blackout/ Livro: Quase não escrevo deJúlia Paixão / Poema Quase não escrevo de Ana Martins Marques . Quase sem motivoacabamos de lançarem órbitavocêno meio dosilêncio.

É a minha vez

a reeditar um sorriso 

no canto avesso da face

olhos expressam dúvidas 

de falas engolidas 

em silêncio tinto e seco

a replantar as raízes

em terras curtidas  

nas saudades de girassóis 

o eu Clitia, despetala e ousa 

se desnudar e ser dona

de si

a recolher meus desejos

em compostagem úmida 

verto o chorume e aguardo

o ciclo de transposição 

dos séculos de servidão 

a renovar pensamentos 

inférteis das boas maneiras 

das meninas recatadas

brindo com sorriso 

aberto,

as pernas que seguem

meu destino 

com o sem sol

reescrevo, cada letra 

desenho o início

desmontando 

o era uma vez

ao esculpir

é a minha vez

Tarde de domingo

Tarde de domingo

As mocinhas com seus vestidos curtos, de costas à mostra
tatuagens sem tinteiro
Onde está o meu dinheiro?

Suas mães com as saias compridas, terço em mãos e joelhos dobrados, vão a missa, missão cumprida
Salvação por suas vidas

As mocinhas e as mães circulam pela praça, por aventuras,
solidez, promessas e curas
Me salvem dessas agruras

Vem as mães com os livros de prece, e as mocinhas com os seus nudes publicados na internet
Cruz credo, virou vedete

As mocinhas seguem a YouTuber e mães os salvadores, imitando a desalmada, ladainha
Foi cancelada

Olhe as mães carregando os séculos, desde o sim ao se casarem, elas pedem pelas mocinhas, bons moços
Para namorarem.

Elaine Perez

Oficina de poesia longa de Mell Renault.

Marei

Me leva, sua voz é ímpeto
bafejo a derramar claridade
banha a sequidão do olhar e inunda o amanhecer

Toma-me no impulso
frescor do cantar em
tríades abertas, melodia de notas de águas claras

Agua-me no deleite fértil
de suas profundezas
dedilhar de ressonâncias abissais

sou lira a vibrar
seu encanto harmonioso
toada sublime e cintilante
minha voz.

Elaine Perez

Fêmea

Oficina Poesia Longa de Mell Renault

Fêmea

Reina coração ardente
contornando órbitas
calor incandescente
da serpente prenha
de criação

infinito ponto a girar
rodear
a força sedutora
da deusa
sedento animal
a lambuzar
de saliva
os mistérios

nudez da aurora
germinadora
de farta provisão
sementes de frutos
multicoloridos
doídos gozos
gustativos
ativos
vivos.

nudez da aurora
multicoloridos
vivos

Elaine Perez

Adeus, Dionísio

Oficina Poesia Longa de Mell Renault

Adeus, Dionísio

É bom que termine assim,
Dionísio
Ébrio do meu líquido
avermelhado
Nocauteado pelo
estorninho-malhado

pássaro que
ao sentir meu cheiro
deixou o bando
e de toque em toque
rompeu a casca
derramou sua seiva
me tomou por inteira
me fertilizou

Calou seu canto,
Dionísio
Misturou porções e
te envenenou
Agora é dono da sua arte
do seu feitiço
do meu corpo
dos meus humores

Eu Ariana,
me deito em seu canto
Sigo inebriada seu voo
transmuto em
ave enfeitiçada

É bom que termine assim,
Dionísio
Calou seu canto,
Dionísio
Eu Ariana,
me deito em seu canto
Sigo inebriada seu voo
transmuto em
ave apaixonada.

Poesia cantada de Elaine Perez

Vírus

Oficina Poesia Longa de Mell Renault

Vírus

Descansa o peso da cruz
na ausência de teus pecados
fia o manto da morte
no abismo das suas faltas

Vírus vivos

Descansa a mágoa empossada
no lodo de teus ressentimentos
costura as feridas
com as agulhas afiadas pelo karma

Vírus ativos

Descansa a corda do relógio
do seu julgamento
tinge de terra vermelha
cada pá cobrindo os corpos
de sua negligência

Vírus nocivos

Descansa a carícia proibida
pela sentença do isolamento
Assovia o grito de guerra
aos que teimam espalhar
a canção de liberdade.

Vida cuidado
Vida cuidado.

Elaine Perez

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