
Oficina 365 Poemas de @mellrenault . Janeiro, mês de Blackout 💫.
O espaço que queima como
fogo acendendo
a luz da varanda
um lado,
um animal afinal espera.
Espalhar arte

Oficina 365 Poemas de @mellrenault . Janeiro, mês de Blackout 💫.
O espaço que queima como
fogo acendendo
a luz da varanda
um lado,
um animal afinal espera.
Meio de Nada
Nasci, meio nascida
No meio da rua,
No meio do barraco
O pai, se foi, meio perdido
para a rua dos Confins
A mãe, rasgada no meio, meio
amargurada, ficou, calada
Na noite, meio chuvosa
A menina, no meio da esquina,
arrastada para o meio do mato.
O corpo, meio usado, roubado,
a boca, meio sufocada
na corrida, meio entorpecida,
fui gerada, meio assustada
Dessa história, meio comum,
me arrasto, no meio do abandono
Sem meias palavras,
escrevo no meio da mesa,
meia folha e meia
Amanhã é dia de comprar,
meio quilo
de sobrevivência.
Elaine Perez
Programa de Escrita Literária
De Mell Renault
a reeditar um sorriso
no canto avesso da face
olhos expressam dúvidas
de falas engolidas
em silêncio tinto e seco
a replantar as raízes
em terras curtidas
nas saudades de girassóis
o eu Clitia, despetala e ousa
se desnudar e ser dona
de si
a recolher meus desejos
em compostagem úmida
verto o chorume e aguardo
o ciclo de transposição
dos séculos de servidão
a renovar pensamentos
inférteis das boas maneiras
das meninas recatadas
brindo com sorriso
aberto,
as pernas que seguem
meu destino
com o sem sol
reescrevo, cada letra
desenho o início
desmontando
o era uma vez
ao esculpir
é a minha vez
Tarde de domingo
As mocinhas com seus vestidos curtos, de costas à mostra
tatuagens sem tinteiro
Onde está o meu dinheiro?
Suas mães com as saias compridas, terço em mãos e joelhos dobrados, vão a missa, missão cumprida
Salvação por suas vidas
As mocinhas e as mães circulam pela praça, por aventuras,
solidez, promessas e curas
Me salvem dessas agruras
Vem as mães com os livros de prece, e as mocinhas com os seus nudes publicados na internet
Cruz credo, virou vedete
As mocinhas seguem a YouTuber e mães os salvadores, imitando a desalmada, ladainha
Foi cancelada
Olhe as mães carregando os séculos, desde o sim ao se casarem, elas pedem pelas mocinhas, bons moços
Para namorarem.
Elaine Perez
Oficina de poesia longa de Mell Renault.
Me leva, sua voz é ímpeto
bafejo a derramar claridade
banha a sequidão do olhar e inunda o amanhecer
Toma-me no impulso
frescor do cantar em
tríades abertas, melodia de notas de águas claras
Agua-me no deleite fértil
de suas profundezas
dedilhar de ressonâncias abissais
sou lira a vibrar
seu encanto harmonioso
toada sublime e cintilante
minha voz.
Elaine Perez
Oficina Poesia Longa de Mell Renault
Fêmea
Reina coração ardente
contornando órbitas
calor incandescente
da serpente prenha
de criação
infinito ponto a girar
rodear
a força sedutora
da deusa
sedento animal
a lambuzar
de saliva
os mistérios
nudez da aurora
germinadora
de farta provisão
sementes de frutos
multicoloridos
doídos gozos
gustativos
ativos
vivos.
nudez da aurora
multicoloridos
vivos
Elaine Perez
Oficina Poesia Longa de Mell Renault
Adeus, Dionísio
É bom que termine assim,
Dionísio
Ébrio do meu líquido
avermelhado
Nocauteado pelo
estorninho-malhado
pássaro que
ao sentir meu cheiro
deixou o bando
e de toque em toque
rompeu a casca
derramou sua seiva
me tomou por inteira
me fertilizou
Calou seu canto,
Dionísio
Misturou porções e
te envenenou
Agora é dono da sua arte
do seu feitiço
do meu corpo
dos meus humores
Eu Ariana,
me deito em seu canto
Sigo inebriada seu voo
transmuto em
ave enfeitiçada
É bom que termine assim,
Dionísio
Calou seu canto,
Dionísio
Eu Ariana,
me deito em seu canto
Sigo inebriada seu voo
transmuto em
ave apaixonada.
Poesia cantada de Elaine Perez
Oficina Poesia Longa de Mell Renault
Vírus
Descansa o peso da cruz
na ausência de teus pecados
fia o manto da morte
no abismo das suas faltas
Vírus vivos
Descansa a mágoa empossada
no lodo de teus ressentimentos
costura as feridas
com as agulhas afiadas pelo karma
Vírus ativos
Descansa a corda do relógio
do seu julgamento
tinge de terra vermelha
cada pá cobrindo os corpos
de sua negligência
Vírus nocivos
Descansa a carícia proibida
pela sentença do isolamento
Assovia o grito de guerra
aos que teimam espalhar
a canção de liberdade.
Vida cuidado
Vida cuidado.
Elaine Perez